A metrópole de São Paulo pulsava lá fora, mas dentro do duplex na Faria Lima, um universo de possibilidades começava a ser moldado. Beatriz, uma arquiteta de trinta e dois anos com uma reputação de precisão quase cirúrgica, observava os planos do apartamento com uma concentração monástica. Seus cabelos castanhos, geralmente presos em um coque firme, tinham algumas mechas rebeldes escapando, uma pequena falha em sua fachada de controle. Ela vestia-se com elegância discreta, cores neutras que refletiam sua abordagem lógica ao design. Para Bia, cada linha, cada ângulo, cada pilar era um componente vital para a funcionalidade e a estética. A chegada de Helena, a designer de interiores contratada para dar vida ao esqueleto de Bia, foi como a entrada de uma rajada de vento tropical em um ambiente climatizado. Helena, trinta e cinco anos, irradiava uma energia vibrante e uma confiança inabalável. Seus olhos castanho-claros eram penetrantes, e um sorriso fácil e convidativo estava sempre pronto em seus lábios. Cabelos em ondas soltas caíam sobre os ombros, e suas roupas, embora profissionais, tinham um toque boêmio chique que realçava sua silhueta com uma elegância despretensiosa. Ela era cor, movimento, paixão. O primeiro encontro no canteiro de obras foi um estudo de contrastes. Bia, com sua prancheta e óculos de segurança, parecia uma escultora diante de sua obra-prima. Helena, com um tablet em mãos, já visualizava texturas e cores, a paleta de sensações que ela iria infundir no espaço. ‘Beatriz? Helena.’ A voz de Helena era melodiosa, com um leve tom rouco que Bia percebeu imediatamente. ‘Helena, é um prazer finalmente conhecê-la.’ Bia estendeu a mão, o aperto firme, mas os olhos de Helena demoraram-se um pouco mais do que o esperado. ‘O prazer é todo meu, Beatriz. Seus projetos são lendários. Este espaço… ah, ele tem uma alma antes mesmo de termos começado a vestir.’ Helena gesticulou com um movimento fluido, como se pudesse tocar a essência do lugar. ‘Você tem um senso de espaço que é quase poético.’ Bia sentiu um rubor subir levemente em seu pescoço. Elogios eram comuns em sua profissão, mas a maneira como Helena os proferia, carregados de uma intensidade quase física, era diferente. Aquele foi o primeiro de muitos pequenos tremores que ela sentiria na presença de Helena. As semanas seguintes foram preenchidas com reuniões de projeto que rapidamente se tornaram um jogo de sedução intelectual e sutil. No escritório de Bia, Helena constantemente se inclinava perto demais para apontar um detalhe no plano digital, o perfume dela — uma mistura de sândalo e jasmim – invadindo os sentidos de Bia. Toques acidentais, mas prolongados, no braço de Bia enquanto elas discutiam a localização de uma luminária ou a altura de um armário, tornaram-se rotina. No apartamento, ainda em fase de acabamento, as conversas sobre materiais ganharam um tom mais íntimo. Helena insistia em sedas para as cortinas do quarto principal, ‘que caíssem como uma carícia’, e texturas aveludadas para os sofás da sala, ‘que convidassem ao toque, ao aconchego’. Ela falava de iluminação ‘quente e convidativa’, de uma paleta de cores ‘que acariciasse a alma e despertasse os sentidos’. Bia, embora profissionalmente concordasse com as escolhas, sentia a palavra ‘sentidos’ ressoar em seu corpo de uma maneira nova e inquietante. Cada sugestão de Helena parecia ter uma camada adicional de significado, dirigida unicamente a ela. ‘Este veludo bordô’, Helena disse um dia, seus dedos deslizando sobre um tecido em um mostruário, ‘seria perfeito para o sofá do estar. Ele tem uma profundidade, um calor… quase palpável.’ Ela se virou para Bia, os olhos brilhando. ‘Sinta, Bia. Sinta como ele te envolve.’ Helena pegou a mão de Bia, suavemente, e a guiou sobre o veludo. A textura era luxuosa, macia e densa, absorvendo a luz. Os dedos de Helena permaneceram sobre os de Bia por um momento que pareceu eterno, e Bia sentiu a eletricidade, não apenas do tecido, mas do toque de Helena, se espalhando pelo seu pulso. Um arrepio percorreu sua espinha. ‘É… intenso’, Bia conseguiu murmurar, sua voz um pouco rouca. Helena sorriu, um sorriso que Bia começou a reconhecer como um prenúncio de algo mais. ‘Intenso e irresistível, não acha? Exatamente o que este apartamento merece. E você, Bia, merece sentir.’ Aquela final de frase, sussurrada quase de forma imperceptível, deixou Bia com o coração acelerado e a mente em turbilhão. Ela estava acostumada a decifrar plantas e cálculos, não as complexas emoções que Helena parecia evocar sem esforço. Um dia chuvoso os prendeu no apartamento. O céu de São Paulo havia desabado em uma tempestade torrencial, e a obra havia parado. Sem eletricidade por um breve período, elas ficaram à luz tênue que entrava pelas grandes janelas, conversando. As conversas, antes estritamente profissionais, desviaram para a vida, os sonhos, as paixões. Helena, relaxada, sentada em um caixote de madeira, com as pernas cruzadas, compartilhou histórias de suas viagens, de inspirações artísticas, e de uma vulnerabilidade surpreendente que Bia não esperava. ‘É engraçado’, Helena disse, olhando para a chuva que batia na janela, ‘como criamos espaços para as pessoas viverem, mas esquecemos de criar o nosso próprio. De nos permitir viver neles.’ Bia assentiu, pensando em seu próprio apartamento minimalista, mais um santuário de trabalho do que de vida. ‘Eu sempre fui mais de construir as paredes do que de decorar o interior.’ ‘Mas as paredes contam uma história, Bia. E o que você coloca dentro delas… ah, isso é onde a magia acontece. É onde a alma reside.’ Naquele dia, a barreira invisível entre elas pareceu diminuir, lavada pela chuva e pelas confidências. Com o projeto se aproximando da conclusão, as visitas noturnas ao apartamento, já mobiliado e com a iluminação instalada, tornaram-se mais frequentes. Uma noite, enquanto revisavam a disposição dos últimos quadros, Helena sugeriu que pedissem uma pizza e tomassem um vinho, já que era tarde e ambas estavam exaustas. Bia, para sua própria surpresa, aceitou sem hesitar. A música suave de um jazz preenchia o ar, as luzes baixas realçavam as texturas e os tons escolhidos por Helena. O veludo bordô do sofá da sala parecia convidar a um mergulho. Elas riram sobre as peculiaridades do cliente, sobre a arte de equilibrar estética e funcionalidade. A conversa fluía com uma leveza que Bia raramente experimentava. ‘Você fez um trabalho incrível aqui, Lena’, Bia confessou, usando o apelido que Helena havia revelado em um de seus momentos mais descontraídos. ‘O lugar tem… vida. Tem uma energia.’ Helena se inclinou, pegando a mão de Bia que estava apoiada no braço do sofá. Seus dedos se entrelaçaram naturalmente. ‘Nós fizemos, Bia. Cada linha que você desenhou, cada material que escolhemos juntas. É um pedaço de nós duas aqui.’ O olhar de Helena era intenso, fixo nos olhos de Bia. O ar no ambiente de repente pareceu mais denso, carregado. A música no fundo parecia ter diminuído para dar lugar ao som dos próprios corações. Helena aproximou-se um pouco mais, o polegar acariciando a palma da mão de Bia. ‘É um lugar que convida… a se perder, não acha? A se entregar.’ Bia sentiu sua respiração falhar. A proximidade de Helena, o perfume que agora era tão familiar, a intensidade de seu olhar, tudo conspirava para desarmá-la. Seu corpo respondia antes que sua mente pudesse processar. Helena soltou sua mão, mas apenas para deslizar os dedos para o rosto de Bia, traçando suavemente a linha do queixo, descendo para o pescoço. O toque era leve, mas provocava um incêndio. ‘Você é linda, Beatriz’, Helena sussurrou, a voz ainda mais rouca. Os olhos de Bia se fecharam por um instante, absorvendo as palavras, o toque, a promessa implícita. Quando os abriu, Helena estava ainda mais perto, os lábios dela quase roçando os seus. O mundo exterior havia desaparecido. O beijo veio. Foi lento, cuidadoso no início, como se testasse as águas, mas carregado de toda a tensão acumulada, de todos os olhares demorados, de todos os toques acidentais. Os lábios de Helena eram macios, pedindo permissão, mas a boca de Bia se abriu em resposta, convidando-a a aprofundar. A mão de Helena deslizou para a nuca de Bia, os dedos enroscando-se em suas mechas soltas, puxando-a para mais perto, eliminando qualquer espaço entre seus corpos. O beijo se aprofundou, urgente agora, as línguas se encontrando em uma dança antiga e nova. Bia sentiu um calor se espalhar de seu peito, uma explosão de emoções que ela havia reprimido por tanto tempo. Suas mãos subiram para o cabelo de Helena, puxando-a para ainda mais perto, o desejo tornando-se uma chama ardente. O toque de Helena era elétrico, explorando a pele de Bia, e as roupas, antes uma barreira, pareciam se tornar um incômodo. No sofá de veludo bordô que elas haviam escolhido juntas, em meio ao luxo e ao conforto que haviam meticulosamente projetado, Bia e Helena se perderam uma na outra. As palavras eram desnecessárias; a linguagem de seus corpos era mais eloquente do que qualquer plano arquitetônico ou paleta de cores. Descobertas e paixão se entrelaçaram sob as luzes suaves que elas próprias haviam selecionado, em um espaço que não era apenas um apartamento, mas agora o berço de um amor inesperado. A noite se estendeu em uma sinfonia de sussurros, toques e suspiros, cada revelação um novo pilar em sua própria estrutura de desejo. Bia descobriu em Helena uma profundidade e uma ternura que a desarmaram completamente, e Helena encontrou em Bia um fogo escondido que ardia com uma intensidade surpreendente. Na manhã seguinte, o sol de São Paulo entrava pelas janelas, banhando o apartamento em uma luz dourada. A bagunça sutil de roupas espalhadas pelo chão e copos de vinho vazios era um testemunho da noite anterior. Helena estava aninhada nos braços de Bia, a cabeça repousando em seu ombro, os cabelos espalhados no travesseiro. Bia acariciava o cabelo dela, um sorriso suave em seus lábios. O trabalho delas havia culminado não apenas em um lar luxuoso e funcional, mas no início de uma história, em uma fantasia-lesbica que havia se tornado realidade. O apartamento na Faria Lima não era mais apenas um projeto; era o santuário onde duas almas haviam se encontrado, onde a arquitetura do desejo havia se fundido com o design da paixão. E ambas sabiam, com uma certeza silenciosa, que este era apenas o primeiro capítulo.